BJJ PARA TODOS - UM PROJETO INCLUSIVO
Atualizado: 10 de abr.
O projeto acolhe e acompanha crianças atípicas, incluindo-as no jiu jitsu e colaborando para com uma vida mais saudável.

Nascido de antigas técnicas orientais, o BJJ (Brazilian Jiu Jitsu) é uma arte marcial baseada na inteligência e prescrição do movimento, usando o equilíbrio, a técnica e o peso do próprio adversário para se defender. Diferente de lutas que priorizam a força bruta, não são permitidos socos e chutes. Essa arte marcial ensina que o corpo pode ser estratégico fazendo movimentos rápidos e precisos, usando corpo e mente em harmonia.
A filosofia que acompanha o esporte vai além da luta física. O jiu jitsu é uma prática que se baseia em princípios: respeito, humildade, disciplina, paciência e autocontrole. Cada faixa representa não apenas conhecimento técnico, mas maturidade e superação. Ser derrubado não é um fracasso, é convite pra tentar outra vez. Com o significado de “arte suave” ou “técnica da leveza”, esse tipo de luta alcança quem busca saúde física, quem precisa fortalecer o emocional e quem procura um ambiente que acolha e estimule a evolução individual. Para crianças e jovens, o esporte ajuda a desenvolver autoestima, foco, socialização e consciência corporal.
No tatame, crianças aprendem a lidar com desafios reais de forma lúdica, entendendo seus limites e descobrindo novas capacidades. A convivência com colegas de diferentes perfis incentiva o respeito às diferenças e a colaboração, criando um espaço onde cada conquista, por menor que seja, é celebrada. A prática estimula habilidades que reverberam além do esporte, melhorando a concentração na escola, fortalecendo o senso de responsabilidade e ajudando no controle das emoções.
A inclusão também ganha espaço dentro dessa modalidade. Crianças atípicas, como aquelas com transtorno do espectro autista (TEA), transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), síndromes raras, deficiências motoras, entre outros, encontram no jiu jitsu uma oportunidade de participação e pertencimento. Professores capacitados adaptam exercícios, respeitam o ritmo individual e celebram cada avanço com a mesma importância. O crescimento dessas iniciativas também revela uma mudança de olhar dentro do esporte, cada vez mais academias e projetos sociais investem em capacitação profissional e metodologias que valorizam a diversidade.
Nesse contexto, o projeto “BJJ PARA TODOS”, criado em 2022, por Rafael Stelin Moreno, é uma referência.
A missão do projeto, segundo Rafael, é incluir crianças atípicas através do jiu jitsu, trabalhando na inclusão destas com crianças típicas através do acolhimento, colaborando assim no desenvolvimento do bem estar, harmonia e interação social. Sua intenção é que os alunos vejam o jiu jitsu como um apoio para os desafios da vida, entendendo que podem superar quaisquer adversidades e se tornarem assim grandes campeões dentro e fora dos tatames.
Localizado no Estádio Caio Martins, em Icaraí, o projeto já atua há três anos e há uma grande vontade de expandi-lo para que o jiu-jitsu possa ajudar mais pessoas através da inclusão social especial. O projeto funciona às terças, quintas e aos sábados e atende alunos dos 2 até os 75 anos de idade.
Rafael tem dois irmãos atípicos, ambos se enquadram no Transtorno de Espectro Autista (TEA). O mais novo é nível 3 de suporte e sequer entrava no tatame, mas com o trabalho realizado, hoje ele consegue realizar as atividades propostas pelo seu professor e irmão, além de estar apegado às crianças que colaboraram para a sua inclusão. Ainda segundo Rafael, quando seu irmão fez a contagem do aquecimento juntamente com a turma pela primeira vez, ele, enquanto professor, experimentou a sensação mais incrível que já pôde ter.
Para o trato especializado e profissional das 58 crianças atípicas, que representam uma parcela das cerca de 212 atendidas, Rafael possui formação em Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e Neurociência. Essa qualificação permite que se utilize técnicas baseadas nesses estudos, colocando em prática o conhecimento das diversas necessidades individuais que podem surgir.
Dos cinco pais/responsáveis entrevistados, todos deram ênfase na disciplina aplicada pelo professor dentro do tatame, mas que já reflete nas demais áreas das vidas dos alunos. As mães relataram uma maior obediência, onde eles entendem que há uma figura de autoridade. Mas, para além da maneira rígida de ser - quando necessário - o “tio Stelin” é muito acolhedor e carinhoso. Mariana Bernardes, mãe do Lorenzo, disse que o principal motivo da inscrição do seu filho foi a falta de foco por conta do Transtorno Opositor Desafiador (TOD) e do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Após o curto período de duas aulas, ela viu a maneira como o instrutor age se colocando como uma figura de autoridade; levou isso para casa, e hoje já vê seu filho mais obediente, escutando o que ela fala e pede.
A sobrecarga emocional, inquietação e ansiedade são os mais frequentes sintomas relatados por pessoas diagnosticadas como neurodivergentes, e esses podem causar problemas significativos, como sono irregular, baixa capacidade de atenção e colapsos nervosos, por exemplo (Envolve Daily, 2024). O BJJ entra em ação de algumas maneiras, fornecendo estrutura e rotina consistente - o que os ajuda na concentração. Há ainda uma diversidade de tópicos que fazem do Jiu Jitsu uma espécie de terapia, pois os prepara para conviver socialmente vencendo as barreiras através do estímulo mental. A gestão do estresse, ansiedade reduzida, melhoria da autorregulação e a sensibilidade sensorial reduzida são outros dos muitos benefícios.
Com as mudanças relatadas pelos pais/responsáveis entrevistados, nota-se a importância do jiu jitsu na qualidade de vida dos alunos e até mesmo dos responsáveis. É perceptível também o quanto o Jiu Jitsu e a saúde estão interligados.
Por Ana Beatriz Viana e Sara Cristine - Estudantes de Jornalismo
19 de nov. de 2025





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